
Ela gostava do tom avermelhado que ficava na parte interior de seus lábios. Também de estar de bem com os fios de seus cabelos, naquele fim de tarde, enquanto saia de casa. Ela não havia sido convidada, embora tenha recusado alguns convites. Apenas se despedia de sua rotina, acomodada em suas costas feito tijolos, para o mundo de possibilidades, onde a regra não é uma boa moça. Vestia quase uma segunda pele de tão suave e leve que se sentia, as bordas de seu vestido dançavam frenéticas, contra a rebeldia do vento. Elas também eram livres.
No trânsito ,olhava as pessoas a sua volta como se nunca soubesse que de fato existiam, ela esteve sozinha por muito tempo, voltava a se acostumar com maneiras alheias de ser. As pessoas e suas personalidades, expressas em tons, cabelos, olhares. Há muito não notava a vida que respirava, andava, fazia escolhas, vivia ao redor de sua área de segurança, aquela em que há dizeres “Área restrita. Só pessoas autorizadas!”. Quanta restrição ela havia imposto em sua vida? E qual o preço exato disso? Ela não saberia dizer o que se deixa de ganhar, quando se deixa de viver…
Estacionou em um barzinho animado com um grupo de adolescentes rindo e falando alto, logo na entrada. Todos com mochilas e bolsas abarrotadas de livros e de sonhos. Aqueles que ela mesma carregou um dia, uma viagem maluca com os amigos guiados apenas pelo espírito de liberdade e diversão, agarrando as oportunidades que surgissem, sem despertadores mal-humorados pela manhã alertando o início de mais um fluxograma entediante, conhecendo pessoas, lugares, crepúsculos e as cores dos raios de sol em cada lugar…embriaguez, sexo, música, todos vividos intensamente.
Depois disso, uma garota na faculdade, sentando sempre no meio da sala, porque agora era ela assim um “meio-termo” de tudo, nem queria o grupo dos perdedores, nem dos brilhantes, ela queria apenas que aquilo um dia tivesse um final. E que fosse o mais insípido e inodoro, possível. Porque ela não era uma pessoa feliz. E também, nunca pensou que deveria ser, nem como. Achou que havia gastado sua quota de diversão no parágrafo anterior, e que ser responsável, esta palavra que seu pai se orgulhava em erguer sobre ela como um palavrão em seus monólogos de decência e moral, não significava que deveria ser feliz também. Apenas cumprir as regras do jogo, e dançar o melhor tango possível.
Ela nunca odiou seu pai por ser medíocre, nem por ser uma pessoa tão infeliz. Ela se odiou por ter permitido aprisionar-se em uma pequena caixinha de fósforo e nunca mais ter acendido um cigarro E quem sabe, jogada a fumaça na cara daquele velho, cuspido a indecência que ela sempre foi na cara dele. Ela teria adorado vê-lo inflar feito uma bexiga de aniversário daquelas que as letrinhas de “parabéns” ficam cada vez maiores a medida que o balão cresce. Ela seria este balão, se enchendo com tudo que ele sempre quis que ela fosse e que ela permitiu ser. E ela estouraria e sujaria a decência e a hipocrisia dele, com sua imoralidade pecaminosa…ela certamente iria gargalhar com isso! Como sinto pena de você, ela diria e iria embora para a vida…
Foi bom pensar nisso, ela dizia a si mesma. E tinha um sorriso malicioso, ao tomar nota disso, mentalmente. Ela sorria porque era livre, porque amou um homem que era exatamente como seu falecido pai foi. Um perdedor, que ela permitiu que fosse seu acompanhante na “arquibancada dos reservas”. Aqueles que se limitam a assistirem e fazerem julgamentos, sem nunca vivenciá-los. Ela acendeu um cigarro barato. E adorou a sensação de se intoxicar com o vapor venenoso que inalava…adorava este direito de não ser o que eles gostariam que ela fosse!
Era apenas uma mulher e sua liberdade.
Por Silmara Dantas
p.s. Quem conta um conto aumenta um ponto?
p.s.2 Um momento de inspiração…sem garantias de sucesso! [Isso parece justo!].
Fico esperando pelo próximo, poq como sempre é muiito bom!
Silmara, vc foi inventada por mim???
Realmente!! Concordo Deise! Prooooximooo!!!!
Heheheh mto bom!
Ps: Não estou com muita cabeça para fazer uma análise mais profunda, digo pessoalmente depois!
Sil, eu simplesmente amei seu blog…
e esse conto então nem se fala…
Eu adorei mesmo, bem profundo e psicológico.
Ela é apenas uma mulher, mas ser essa mulher já quer dizer muita coisa, há muito mais por trás de sermos só humanos, homens ou mulheres.
Existem fatores gerado por nossas atitudes que determinam coisas futuras.
Eu coloquei seu link em meus dois blogs:
http://santoateismo.wordpress.com
http://coolturalblog.wordpress.com
Abraço
Tava inspirada hein Galega.Vai ter continuação?
Eu ainda quero inventar algo para explodir pessoas assim hahahaha.
Eu digo “inventada por mim” p td q é tão bom que quase parecementira.E vc é.
As compras tb são boas, mas foram inventadas por porcos capitalistas.hjehe
Já tinha vindo aqui, e sempre deixava o post favoritado pra comentar, mas na correria acabava esquecendo, admito. Mas o conto é ótimo, e se ganhar pontos, pelo menos na minha humilde opiniao, ganhou vários.rs.
agora você está devidamente linkada.
Beijos imensos.
“muitos desacreditam e agem de acordo com o manual de “auto-protecionismo”
não tenho esse hábito de ficar nesse vai e vem de comentarios, mas é que seu comentário foi o melhor de todos eveeer.rss.
vc entendeu perfeitamente o que eu quis dizer.
beijos.
Bonitinha da De!
=)
Só um mimo pra galega inteligente que eu conheço
Contando um conto?!?
Pode até parecer…
Mas, é quase impossível escrevermos com teclas ou tintas de caneta, aquilo que em nós não está inscrito…
Assim sendo, parabéns pelas percepções, sensibilidade e verdades íntimas expressas no texto.
Era apenas uma mulher e ‘seu desejo’ de liberdade… Pois, como seria liberdade mesmo, se a mulher se permite ainda viver sob sombras de sentimentos e impressões que lhe escravizam a alma…? Ou sob a jactância de se achar tão livre que julgue que os outros estejam todos presos… Esquecendo-se de que todos nos fazemos escravos de várias coisas, até de nós mesmos ou dos nossos desejos, no mínimo.
Não há liberdade se existem subjetividades interiores que escravizam o ser, como ódios, rancores, falsas piedades formadas em auto-glorificações, auto-justificações que embotam a verdade do ser…
A liberdade mesmo, ao meu ver, só acontece quando é firmada no chão da verdade do ser, do amor que não julga, e de tudo que seja ou se torne Bem para a vida… até o que pareça mal!
Mas,…muito bom texto, vc está se superando!
Bjos, Sil!!!
Muito bom. Impressionante como muitos se prendem a redomas, limitados por padrões, imposições familiares. Li em algum lugar que é necessário temer o silêncio dos bons. E parece que tal silêncio sufocou o infinito de possibilidades de sua personagem por um bom tempo. Agora ela sorri irônica e acende um cigarro, é a alegria de quem passa a saber e expresar o que quer.
Parabéns pelo conto. Que venha a parte 2!
Beijo.
Eu não saberia escrever algo como “Ela nunca odiou seu pai por ser medíocre, nem por ser uma pessoa tão infeliz. Ela se odiou por ter permitido aprisionar-se em uma pequena caixinha de fósforo e nunca mais ter acendido um cigarro E quem sabe, jogada a fumaça na cara daquele velho, cuspido a indecência que ela sempre foi na cara dele.” e acho que é por isso que eu babo, sonho e sou louquinha por ti!
Agora, depois do msn, ainda mais!
A partir do momento em que você tem consciência você passa a ser prisioneiro de um contexto construído na sua alma. O que mudam são as percepções de cada um sobre o que é taxativo ou rotulante ou não. Sendo assim como todo ser humano tem consciência e todos vivem em um meio humano todos estamos aprisionados, a diferença é que alguns conseguem ver as paredes que os aprisionam mas, poucos vêem que ao invés de se libertarem mudam apenas de sela ou de carcereiro, mesmo que a sela seja sua cabeça e seu carcereiro sua alma.
Sil, Parabéns pelo seu blog!! To muito orgulhoso de vc!!
Visita-lo é como se eu estivesse conversando pessoalmente contigo!!!
Obrigado por nos delicias com seus textos!!
nossa, que lindo…
eu amei *-*
você escreve realmente bem!
parabéns (: